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Edições
:: Fonte: Revista Lume Arquitetura - edição número 11
Entrevista: Kai Piippo
Profissionalização como compromisso
Por Maria Clara de Maio
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Kai Piipo, lighting designer finlandês que atua na Suécia e também é diretor
internacional de desenvolvimento da European Lighting Designers'Association -
ELD ELDA+, veio ao Brasil para participar do 7º Lighting Design, que aconteceu
em São Paulo, em setembro, e contou com a participação de mais de 400
profissionais da área, entre lighting designers, arquitetos, designers de
interiores, engenheiros e executivos de diversas empresas de iluminação.
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Piippo ministrou algumas palestras sobre seu trabalho e apresentou as perspectivas
internacionais sobre o assunto.
Ele também participou de importantes reuniões com profissionais no Brasil, incluindo
um encontro na AsBAI - Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação. Em sua breve
passagem pelo país, e com uma agenda bastante comprometida, concedeu a seguinte
entrevista para a Lume Arquitetura:
Lume Arquitetura: Explique-nos um pouco sobre a ELD ELDA+ (lê-se ELDA Plus)
Kai: A ELDA+ é uma organização sem fins lucrativos para lighting designers independentes.
Nosso objetivo é estabelecer esta profissão mundialmente. Isso significa trabalhar para
implantar e dar suporte a programas educacionais de qualidade, além de auxiliar nossos membros
a se tornarem melhores profissionais. A ELDA+ tem um programa de workshop reconhecido
mundialmente que ajuda a treinar jovens designers e dá uma grande visibilidade para o lighting
design como um fator decisivo na arquitetura e em espaços arquiteturais. Até agora, a ELDA +
organizou 11 workshops de grande escala e mais 6 workshops em quatro diferentes países da
Europa. Esses eventos envolveram mais de 50 designers diferentes e cerca de 600 participantes.
Nós também organizamos 30 grandes seminários com feiras em cidades européias. Em novembro, a
ELDA comemorou seu 10º aniversário na Suíça. Somos hoje mais de 300 membros em 42 países.
Lume Arquitetura: Por que Elda +?
Kai: De fato, mudamos nosso nome de ELDA para ELDA+. Nosso lema é "Tornar mundialmente real a
profissão de lighting designer". Fizemos isso para mostrar que somos mais hoje do que quando
começamos. E que nós, agora, oferecemos aos nossos membros mais serviços e benefícios. Nosso trabalho
e nossos contatos nos levaram para fora da Europa. Atualmente, somos ativos no México e realmente
desejamos desenvolver mais contatos na América Latina.
Lume Arquitetura: E como a ELD ELDA + trabalha dentro e fora da Europa?
Kai: Na Europa realizamos reuniões e conferências em tantos países quanto for
possível, com o objetivo de construir nossa presença nesses locais. Mesmo se tivermos
apenas um membro em um determinado país, mantemos um contato próximo e ouvimos este
membro para verificarmos como a associação pode fortalecer suas chances de
reconhecimento como um profissional de iluminação. Temos muitos membros fora da Europa
e tentamos apoiar suas atividades em seus respectivos países, onde quer que estejam.
Isso significa entender diferentes mercados em todo o mundo e encontrar maneiras de
promover o lighting design através de nossos membros ativos. Como disse anteriormente,
um de nossos principais objetivos é estabelecer a profissão, o que significa trabalhar
com universidades para criar programas educacionais. Hoje, a profissão de lighting
designer não existe de fato, da mesma maneira que existe um dentista, um médico ou um
carpinteiro. Não está realmente estabelecida como profissão. E agora nós estamos
trabalhando para fazer isto acontecer. Para tanto, entendemos que a educação é crucial.
Assim, 50% de todos os recursos provenientes das taxas pagas por nossos associados e
por nossos patrocinadores, a ELDA+ investe em educação. Eu diria que esta é a nossa
prioridade número um.
Lume Arquitetura: Falando em prioridades, quais são as prioridades da ELDA+ no Brasil?
Kai: Antes de qualquer coisa, é importante esclarecer que a associação ELDA+ não quer ir aos
países e lhes dizer o que fazer. Nós buscamos entender a situação do lighting designer e oferecer
suporte, mostrando interesse no que está sendo desenvolvido. Assim, as prioridades virão de vocês, no
caso, colegas brasileiros que entendam a ELDA+ com uma visão de colaboração em algum modo. Nesses três
dias no Brasil, percebi uma grande demanda por educação. Eu acho que esta é uma área em que a ELDA+
pode ajudar. Os lighting designers no Brasil querem se tornar mais profissionalizados. Através da
educação em nível universitário e mostrando exemplos de como nós temos lutado por isto, gostaríamos
de ajudar a estabelecer mais profissionalismo e reconhecimento de profissionais de iluminação.
Lume Arquitetura: Como foi a reunião com a AsBAI? O que vocês decidiram sobre uma futura cooperação
entre a ELDA+ e a AsBAI?
Kai: A primeira vez que conheci membros da AsBAI foi em Frankfurt, na Light+Building. Nesta
Segunda reunião, no Brasil, não chegamos a nenhuma decisão concreta, mas compartilhamos informações de
como o mercado brasileiro de design de iluminação funciona. Agora, aguardamos a AsBAI escrever um
resumo deste encontro, indicando em quais pontos a ELDA+ pode cooperar com a AsBAI e com os lighting
designers brasileiros.
Lume Arquitetura: Em outros países, vocês já firmaram parcerias no campo da educação?
Kai: Sim, nós temos membros da ELDA+ em outros países e, por exemplo, ajudamos esses
associados a iniciar a educação em nível universitário. Este é um aspecto muito importante na criação
de uma nova profissão. Com a AsBAI, por exemplo, queremos planejar um seminário conjunto no ano que
vem.
Lume Arquitetura: Seria um seminário internacional com participação de membros da ELD ELDA+ A+ de
várias partes do mundo?
Kai: Sim, deverá ser definitivamente internacional. Eu imagino o programa compreendendo duas
partes distintas em dois dias. No primeiro dia, poderia haver uma grande conferência para centenas de
pessoas e, no segundo dia, os lighting designers profissionais poderiam ministrar tutoriais com grupos
menores. Então, poderemos ter palestras para poucas pessoas, em cinco ou seis salas com diferentes
tópicos. Um dos tópicos poderia ser ética profissional, por exemplo. Ambas associações, AsBAI e ELDA+,
precisam pensar sobre isso e definir o que seria mais efetivo.
Lume Arquitetura: Como a ELDA+ deve ser encarada pelos profissionais de iluminação?
Kai: Nós não nos vemos como missionários. Estamos interessados é em relações
duradouras, relações de trabalho que adiantem o todo o processo, de maneira que o país
possa tratar disso em seu próprio passo. O que nós fazemos é networking, e gostaríamos
de criar uma rede de relacionamentos na América Latina que inclua México, Brasil,
Chile, etc. Melhor, eu diria América do Sul e América Latina, porque vocês têm uma
cultura comum e entendem as condições locais. Talvez nossos colegas brasileiros queiram
fazer algo específico para promover a profissão de lighting designer. Eles sabem que
podem dividir esses objetivos conosco e ficaremos felizes em apoiá-los, se desejarem.
Já temos alguma experiência em colaborações nesse sentido no México.
Lume Arquitetura: Em sua experiência como lighting designer e como diretor da ELDA+,
você acredita que, como profissional, a experiência de ilumina- iluminação em outros
países, no que diz respeito à luz natural e a cultura de iluminação, é toda igual?
Kai: Diferentes culturas de iluminação nascem de diferentes experiências de luz do
dia. As situações econômica e política, por exemplo, também tornam os lighting designers
diferentes. Contudo, a profissão é a mesma onde quer que você esteja, seja na China, na África
ou na América do Sul. Os problemas são os mesmos. Começa pelo próprio entendimento da
profissão. Eu tenho descrito diariamente aos meus clientes o que eu faço, o que um lighting
designer faz. Nós não apenas "criamos desenhos de iluminação". Nós temos que explicar e
promover o que fazemos, até para os nossos clientes. Eles, às vezes, não entendem, ou não
sabem, o que eu faço. Esse é um problema comum mundialmente. Clientes querem iluminação, mas
não sabem o que um lighting designer pode oferecer.
Lume Arquitetura: Isso acontece porque lighting design é algo novo em todo o mundo?
Kai: Não é exatamente novo, mas tido como novo. Temos desenvolvido a profissão de lighting
designer através da luz elétrica, digo, desde a invenção da fonte elétrica de iluminação. O design da
luz do dia tem feito parte do design arquitetônico por milênios, é claro. Mas o design de iluminação
como nós conhecemos hoje ainda não é uma profissão em seu próprio direito, apesar de muitas pessoas
pelo mundo estarem fazendo isto.
Lume Arquitetura: Profissionalmente?
Kai: Sim, profissionalmente. E temos nos reunido em associações num esforço de obter
reconhecimento para a profissão, desde a ELDA há 10 anos e, antes disso, na IALD (International
Association of Lighting Designers ou Associação Internacional de Designers de Iluminação), que tem
35 anos.
Lume Arquitetura: Qual é a melhor educação para tornar-se um lighting designer? Qual a melhor maneira
de começar? Você, por exemplo, começou na iluminação cênica, certo?
Kai: Sim, eu comecei na iluminação de palcos. Eu não acho que exista uma maneira de descrever
o melhor background. Conheço alguns excelentes lighting designers. O trabalho deles é extremamente
artístico, mas eles não são artistas. Seus backgrounds podem ser arquitetura, iluminação cênica ou
engenharia elétrica. Nós temos um interesse comum: nós somos interessados em visão. A palavra teatro
vem do grego "teatro" e significa olhar intensamente - o que é o real significado da palavra. Nós
estamos interessados em percepção e na criação de um ambiente com boa percepção visual. Uma das
melhores maneiras de aprender sobre iluminação é ganhar experiência prática com luminárias. Eu
aconselho pessoas jovens a encontrar programas educacionais que envolvam trabalho prático e teórico
no curso.
Lume Arquitetura: Você acha que as tecnologias de iluminação facilitam a elaboração dos projetos,
atualmente? Elas seduzem os designers de iluminação? O quão perigoso isso pode ser?
Kai: As novas tecnologias nos dão muitas novas possibilidades, mas temos que estar
muito certos do que queremos fazer com isto. A tecnologia nos dá três idéias essenciais:
diferentes caminhos para o design, a integração de pequenas fontes de iluminação com
arquitetura e uma perspectiva de design totalmente nova. É uma coisa muito boa. Mas há um
perigo de ser seduzido pelos filtros coloridos, especialmente os filtros azuis! Algumas
vezes, tecnologias convencionais são mais aceitáveis. Por exemplo, nós ainda temos a lâmpada
de 60 watts. E é a lâmpada mais comprada da Terra. Isso acontece porque todo mundo a entende,
é barata e existe há 100 anos - então, tem que ser boa... Eu acho que os fabricantes de
produtos para iluminação devem consultar os lighting designers antes de desenvolverem novas
tecnologias. Nós estamos na vanguarda do design de iluminação e podemos dizer que tipos de
tecnologias gostaríamos de ver desenvolvidos.
Lume Arquitetura: Que conselho você daria aos novos arquitetos e aos designers de
interiores que estão começando a especialização ou na profissão lighting designer?
Kai: O que eu digo em minhas palestras é que a profissão de lighting designer e de
arquiteto levam um longo tempo para aprender quando você pratica. Nas escolas, você aprende
mais rapidamente. Mas na vida real, você toma decisões hoje e em dois anos verá o resultado.
Eu diria para estas pessoas que se deve ter muita experiência com novas fontes de iluminação.
Faça experiências de iluminação. Olhe para o seu trabalho o quanto mais for possível. Aprenda
do que você vê. A propósito, isso não é apenas para fontes de iluminação. Também se aplica a
sistemas de controles e o que eles podem fazer.
Lume Arquitetura: Mas o lighting design não trata apenas de sistemas de controles ou de luz
artificial. Há muitas maneiras de trabalhar com iluminação natural.
Kai: Sim. E é muito fácil ser seduzido por sistemas de controles, não apenas
de fontes de iluminação. O problema com as novas tecnologias de sistemas de controles
é que falta um jeito humanístico de fazer as coisas funcionarem. Quando você entra na
casa das pessoas, todas elas têm interruptores de liga-desliga nas paredes. Todo mundo
sabe disso, porque na nossa geração aprendemos isso desde que nascemos. E agora também
é possível controlar a iluminação através de painéis de toque, telas de computador ou
por voz. Isso é muito mais complexo, então temos que tornar sua interface
compreensível. Tem que ser especialmente fácil e claro, porque as pessoas não estão
acostumadas a essas novas interfaces. Portanto, os fabricantes de controle de
iluminação devem fazer sistemas de controles de iluminação muito mais fáceis.
Lume Arquitetura: Tanta tecnologia não interfere na percepção da luz? Como combiná-las,
utilizando também a luz natural?
Kai: Eu acho que essa é a essência da nossa profissão: o conhecimento que
temos significa que podemos entender a tecnologia e, então, podemos controlá-la. Essa
é a essência de um bom projeto. Isso é o que fazemos, nós controlamos a tecnologia e
controlamos a iluminação para podermos criar o que queremos. A tecnologia não deve nos
controlar. Nós devemos controlá-la. É fácil se perder na nova tecnologia. Mas nós temos
que conhecê-la e domá-la.
Lume Arquitetura: Quando apresentou seus projetos durante sua palestra no 7º Lighting
Design, , você dizia com freqüência que se tratava de um projeto "muito simples".
Defina "muito simples".
Kai: É tecnicamente simples. É tecnicamente muito simples. Há poucas
características, poucas luminárias em meu design e soa tecnicamente muito simples e
muito barato para produzir. Mas a coisa mais difícil é encontrar a idéia certa, no
lugar certo e na hora certa - isso é difícil e leva tempo. Meu estilo não é fazer
tecnicamente complicado, porque deve ser útil, deve ser fácil de controlar, etc. Tenho
desenvolvido projetos nos quais aprendi que eu não devo fazer tecnicamente difícil,
porque não funciona na realidade. Assim, "muito simples" significa tecnicamente
simples, muito claro. É como um diamante, uma idéia muito cristalina, que funciona
100%. O difícil é fazer a idéia se tornar realidade no projeto. Algumas vezes, o
difícil é fazer 100%. É fácil fazer 97%, mas os últimos 3% são a coisa mais difícil
de produzir. E isto é tudo o que é necessário para qualquer negócio. Ser 3% melhor do
que seus concorrentes. Apenas 3% são o suficiente. Se você for 3% melhor do que seus
concorrentes, será o vencedor, aquele que lidera. Quando você estiver mais cansado,
estressado, sob maior pressão, você tem que se esforçar para fazer aqueles 3%.
Lume Arquitetura: Uma de suas apresentações foi sobre luz nórdica e sobre o Nordic
Light Hotel. Explique- nos um pouco mais sobre isso. Nós vivemos num país tropical e
luz nórdica é algo muito distante de nós. Como os nossos lighting designers podem
usar essa experiência em seus próprios projetos aqui?
Kai: Nos países nórdicos nós temos altos muito altos e baixos muito baixos. É
muito escuro e é muito claro. Há muito contraste, também na maneira pela qual você
vive sua vida, porque o que você sente anualmente no inverno e no verão é totalmente
diferente. É muito mais diferente do que em outros lugares. Nós somos muito mais
afetados pelas estações. Nosso humor é afetado. Nossos humores mudam, quando você anda
nas ruas da Escandinávia e o sol chega na primavera, e a luz retorna, as pessoas param.
Param e olham apenas o sol. Apenas sentem o calor. Isso nos torna mais sensíveis à luz.
Nossa sensibilidade e percepção, eu acho, têm-se desenvolvido porque nós temos as
estações bem definidas. Em Estocolmo, por exemplo, temos seis horas de luz do dia em
dezembro e dezoito horas e meia em junho. Eu mostrei isso no Brasil para que vocês
possam ver sua própria cultura de iluminação aqui. Se você vir uma diferença, pode
entender a si mesmo. Eu tive essa sensação quando assisti a uma palestra em Milão,
de Francesco Iannone. Ele falou sobre culturas de iluminação do norte e do sul, mas
ele usou a Itália como norte e África como sul. Foi muito interessante e disso consegui
inspiração para falar sobre iluminação na Escandinávia, que para mim é nórdica,
enquanto Itália é Sul. Acredito que ver algo diferente pode fazer você entender e
apreciar mais sua própria cultura. Quando eu viajo pelo mundo, aprecio minha cidade
natal ainda mais, porque eu entendo o quão boa ela é. Eu também quero dar essa idéia
para minhas platéias, porque eu quero promover a luz nórdica como um fenômeno, como
uma inspiração. Ela dá inspiração e sabedoria.
Lume Arquitetura: Então você realmente acredita que aqui no Brasil, um país ensolarado,
nós podemos realmente aproveitar alguma coisa da Nordic Light ?
Kai: Falo sobre realmente entender o significado da iluminação em nossas
vidas. A luz natural que vocês experimentam aqui no Brasil é o que molda suas vidas.
Se você alguma vez tiver a chance de ir à Escandinávia, tanto no inverno quanto no
verão, irá experimentar a luz nórdica por si próprio. A iluminação e a vida na
Escandinávia são totalmente diferentes daqui. E quando você vê alguma coisa que
é totalmente diferente, você entende melhor sua própria vida e situação. Como eu
sempre digo: luz é vida; vida é luz, desde o princípio.
Tradução: Daniela Giuntini
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