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Edições
:: Fonte: Revista Lume Arquitetura - edição número 15
Pós-Pioneirismo
Evolução e conflito
Por Cláudia Cavallo
Arquitetura de Iluminação é uma atividade relativamente nova no Brasil, mas nem tão nova assim ou, pelo menos, já em sua fase pós-pioneirismo. Os profissionais e empresas que "deram à luz a luz na Arquitetura" começam a ver filhos - legítimos, bastardos ou de DNA desconhecido - seguindo seus passos; uns do jeito que o mestre ensinou, outros nem tanto. Na verdade, de repente parece que a prole é bem maior do que se supunha ser possível há cerca de uma década, não há mais como tolher seus rumos ou destinos - e conviver com esta geração de novos luminotécnicos, nascida na globalização, implica alguns conflitos, no mínimo de conceitos.
Mas toda mudança é um processo, não acontece da noite para o dia, e este meio-tempo é o tempo que se tem para trabalhar uma possível transição, para que o resultado das mudanças não acabe se revelando uma brusca ou dolorosa ruptura com tudo aquilo de bom que foi semeado.
No que diz respeito à Arquitetura de Iluminação, no Brasil, temos visto o fenômeno do "auto-intitulamento" - quando num estalar de dedos, uma pessoa sem o devido conhecimento técnico ou experiência se autonomeia lighting designer -, temos visto a banalização da atividade - com defeitos sendo descritos como efeitos -, mas também temos visto o surgimento de profissionais comprometidos com o desejo de aprender, com a busca pelo conhecimento, o respeito e admiração aos mestres ou pioneiros e, por que não dizer, adequados ao perfil de um mercado também alavancado com a globalização e todos os benefícios e prejuízos que ela trouxe e ainda traz. Se é possível separar o joio do trigo... esse é um tipo de seleção que começa no terreno da avaliação por parte de profissionais que se tornaram referência em excelência e qualidade, mas que acaba sendo decidida pela demanda de consumo, grau de informação e poder aquisitivo do consumidor.
O artigo que apresentamos a seguir revela um pouco das características de uma nova geração de arquitetos de iluminação, a base de sua formação, sua relação com a Indústria e posicionamento quanto a conceitos que precisam ser preservados. Alguns dos cinco entrevistados aqui já são premiados em concursos nacionais e vêm fazendo sucesso em mostras de arquitetura por diferentes cidades brasileiras. Há muitos outros jovens talentos despontando por aí - o tempo não pára e eles têm pressa.
De onde viemos? - Os primeiros especialistas em Iluminação para Arquitetura no país começaram como autodidatas, estudando através de escassa fonte de consulta, dispondo de um limitadíssimo leque de ferramentas, investindo em viagens para buscar referências no Exterior, desenvolvendo luminárias. Alguns tiveram a oportunidade de trabalhar em escritórios de arquitetos que já vinham se dedicando ao tema.
Quem somos? - Mais de uma década se passou e, embora já exista no país alguma bibliografia e cursos voltados ao melhor aproveitamento da Iluminação, os profissionais que chegam ao mercado mais recentemente ainda precisam "perseguir" o conhecimento, buscando especialização onde é possível. A Internet facilitou bastante esta tarefa e democratizou a informação, de certa forma. Seminários ministrados por alguns dos pioneiros na ciência-arte de iluminar também tiveram - e ainda têm - grande importância na formação desta nova geração, não só pelo conteúdo técnico transmitido em algumas apresentações, mas, principalmente, pela ênfase a conceitos fundamentais como o de que não existem soluções-padrão; um bom projeto luminotécnico exige criatividade, mas consiste em um trabalho essencialmente matemático; não se dorme amante da luz e se acorda lighting designer sem antes estudar e praticar muito.
A indústria, por incrível que pareça, tornou-se uma aliada da nova geração de profissionais, num crescimento - se não mútuo - pelo menos paralelo. Na estratégia de oferecerem assessoria ao consumidor, fabricantes e lojistas foram formando especialistas, servindo de base para posteriores vôos-solo. Este foi o caso de quatro dos nossos cinco entrevistados.
Ugo Nitzsche

Ugo Nitzsche formou-se em Arquitetura pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, em 2004. Enquanto cursava a faculdade, estagiou no escritório do lighting designer Maneco Quinderé e trabalhou numa loja de renome. Após se formar, associou-se a um amigo também arquiteto, começou a desenvolver projetos luminotécnicos próprios e vem atuando como profissional independente desde então. "Com o Maneco Quinderé pude observar e aprender sobre efeitos e o aspecto artístico da iluminação. Conhecimento técnico sobre lâmpadas, luminárias e equipamentos auxiliares consegui em aulas com um exrepresentante da Osram - que acabou se tornando grande amigo - e também no dia-a-dia, na loja onde trabalhei, com o lighting designer Nils Ericson, a quem eu fazia o máximo de perguntas e ele, percebendo meu interesse, esclarecia as dúvidas e rebatia com outras questões, acelerando bastante meu aprendizado. Sempre serei muitíssimo grato a estas pessoas pela atenção e carinho que a mim dedicaram" - revela.
Felipe Abujamra

Felipe Abujamra, formado pela PUCCAMP - Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 2001, teve a oportunidade de trabalhar para um grande fabricante de luminárias. "Aproveitei a chance e estudei feito louco, li tudo o que pude encontrar sobre Iluminação, aprendi o que era lux, lúmens, curva fotométrica. Tenho que agradecer a profissionais como Antonio Carlos Rodrigues, Silvia Bigoni e Alan Nascimento, que, generosamente, me ensinaram muito. Minha formação em arquitetura foi fundamental para que eu pudesse entender o conceito de iluminação diretamente relacionado ao espaço e não como um mero acender e apagar em interruptores" - conta.
Renata Brendolan

Renata Brendolan, formada pela PUC - MG, em 2002, estagiou numa loja de materiais elétricos e, posteriormente, num escritório de projetos luminotécnicos em Minas, onde vivia. Atualmente, trabalha como autônoma em Brasília. "Adquiri muita experiência comercial trabalhando na loja de materiais elétricos. Passar pela Indústria ou Comércio é uma forma de aprendizado e um início de carreira. É um primeiro passo, pois para especializar-se em projetos de iluminação é preciso estudar mais e se aprofundar no assunto. Foi isso que busquei e encontrei no escritório onde comecei como estagiária e, mais tarde, me associei. Projeto de iluminação precisa ter cotas, legendas e especificação completa. Isso, sem falar em cálculos luminotécnicos! Sem essas condições fica difícil garantir um bom projeto e as manutenções futuras. Além disso, trabalhando para um fornecedor, não há liberdade de escolha; você fica limitado aos produtos daquela loja ou fabricante, tanto no que diz respeito à especificação quanto ao conhecimento sobre a performance dos produtos." - defende.
Nídia Borelli

Nidia Borelli concorda: "Passar pela indústria ou comércio é uma forma de aprendizado e um início de carreira. Eu passei pelo comércio e aprendi muito com isto. A busca pela informação, no entanto, não pode parar por aí. A especialização é constante, porque a profissão é dinâmica." Nidia teve seu primeiro contato com iluminação em 1994, em São Paulo, quando precisou executar um projeto de franquia de lojas e concessionárias pelo Brasil. Buscando suporte, conheceu o Sr. Isac Roizenblatt, que atuava na Philips e, a partir de então, começou a estudar, fazer cursos, comprar livros e informar-se sobre o assunto. Morou em Natal por alguns anos, onde foi contratada por uma loja de luminárias, para dar suporte a projetos. Foi para o Exterior, estudar Lighting Design. De volta a São Paulo, resolveu cursar Arquitetura - pois sua formação inicial é em Design.
Marcos Castilha

Marcos Castilha trilhou um outro caminho. Formou-se em Arquitetura pela FAUUSP, em 1991, tendo passado pela iluminação cênica também. Foi aluno dos professores Carlos Mingrone e Paulo Scarazzatto, com quem aprendeu sobre procedimentos técnicos e metodologias de cálculo de iluminação. Em início de carreira, desenvolveu e executou projetos de iluminação para estandes em feiras, casas noturnas e espetáculos de dança. O "apagão", em 2001, abriu as portas para a especialização em projetos na área de Arquitetura, levando-o a parcerias com escritórios como RochaFluida (Campinas) e Sita & Bassichetto (São Paulo).
Castilha acredita que para ser um bom profissional é preciso aliar teoria à prática, o que inclui ver de perto como os equipamentos se comportam em condições reais. "Acho fundamental ir a campo. Se você quer entender o comportamento da luz, além de conhecer os aspectos teóricos e metodologias de cálculo, precisa observá-la atentamente. É necessário adquirir experiência, criando na sua mente uma bagagem visual e emocional do comportamento da luz. Além disso, em campo pode-se observar problemas como luminárias que enferrujaram na chuva ou que amarelaram com o ultravioleta da lâmpada" - alerta.
Para onde vamos? - A solução para a equação de preservar o espaço do Arquiteto de Iluminação num cenário em que a Indústria e o Comércio oferecem projetos como bônus para a compra de seus produtos - o que se mostra um dos difíceis impasses na fase pós-pioneirismo - pode vir a ter um resultado satisfatório num futuro próximo, com o aumento do número de profissionais. "Lojas e fornecedores são parceiros que dão suporte ao nosso trabalho. O projeto luminotécnico e a assessoria do fabricante ou lojista são diferentes serviços que podem existir no mesmo mercado" - acredita Ugo.
Renata dispõe-se a ter contato com o maior número de fabricantes possível, para que possa especificar com segurança. "Hoje o leque de fabricantes é muito amplo e para garantir o bom resultado de um projeto é necessário conhecer pessoalmente as luminárias escolhidas, 'ver com as mãos' o sistema de fixação, a qualidade do material e da pintura, as peças do soquete, entre outros aspectos" - opina.
Nidia Borelli destaca uma grande vantagem do bom relacionamento com fornecedores e do uso de seus show rooms: "Tenho uma parceria muito boa com as lojas, porque é onde levamos nosso cliente para ver a luminária e o efeito da luz."
Quando quer colocar uma idéia em prática, Abujamra tem os fornecedores como aliados: "Ao desenvolver um projeto, pesquiso, leio, vejo o que é possível, mas sempre procuro inovar. Se tenho dúvidas, converso com arquitetos e também com fornecedores, até chegar onde preciso".
Um mercado com mais profissionais especializados em iluminação é, por um lado, um benefício para a Indústria e o Comércio - que tem como principal atividade a venda de produtos e não de projetos. O nível de exigência destes novos consumidores, entretanto, forçará o desenvolvimento de produtos nacionais mais bem elaborados, eficientes e bem acabados, acirrando a concorrência.
"Costumo dar preferência aos produtos nacionais, por questões estratégicas de mercado, patrióticas e financeiras. Os aspectos que avalio são qualidade e acabamento, prazo de entrega e, principalmente, capacidade de uma mesma linha ou família de produtos trabalhar com tipos de lâmpadas diferentes, o que é o mais difícil" - comenta Ugo.
"Bons produtos não são, necessariamente, os mais caros" - ressalta Marcos Castilha, que também observa: "Sinto falta de mais opções de lâmpadas no nosso mercado, com maior variedade de temperatura de cores e aberturas de facho.
Também temos poucas opções de projetores com melhor controle óptico ou com opção de filtros de cor. Nestes casos praticamente temos que partir para modelos importados."
Nidia prioriza fornecedores que oferecem catálogo impresso e fichas técnicas dos produtos com curvas fotométricas. Quanto ao custo, ela diz: "Claro que preço é importante para justificar a implantação de um projeto, mas não é o único fator determinante."
Criador e criatura - Pioneiros na Arquitetura de Iluminação no Brasil sofrem ao verem pessoas atuando como lighting designers, sem terem a devida formação, que depreciam a atividade e comprometem a ética do mercado. Mas não se pode generalizar. Bons profissionais vão existir em qualquer época e sua qualidade e competência serão sempre fruto de esforço, pesquisa, dedicação e estudo - o que os fará prezar pelo exercício da profissão e defender a valorização do conhecimento.
O que os mestres vêm enfatizando, incansavelmente, em palestras pelo Brasil a fora, já entrou - e definitivamente - na cabeça da nova geração.
"Um projeto de iluminação nunca é igual ao outro, porque as características físicas mudam. O conhecimento básico está ao alcance de muitos, mas para ser um lighting designer é preciso mais que isto. É preciso conhecer, respeitar e entender a arquitetura, a cidade, o espaço público e coletivo. É preciso estar em aprendizado constante, gostar de física e matemática, não para fazer cálculos que os softwares fazem, mas para entender a luz. É necessário conhecer o corpo, a arte, a cor e o movimento. Um projeto luminotécnico não é apenas a especificação de lâmpadas e luminárias. O investimento em formação custa caro e é por este motivo que fico triste quando vejo aventureiros na profissão, pessoas que fizeram um curso básico ou apenas trabalharam por um período com produtos, intitulando-se lighting designers" - palavras de Nidia Borelli, mas... você já não ouviu isso antes?
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