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Edições
:: Fonte: Revista Lume Arquitetura - edição número 6
Ponto de Vista: Centro de Distribuição Riachuelo
Concepção ecológica em experiência bem sucedida
Por Eng. Alan Nascimento, Arq. Dominique Fretin, Arq. Ladislao Szabo e Arq. Milton Granado
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Um dos enfoques possíveis em um projeto arquitetônico com responsabilidade ecológica é a preocupação crítica com a quantidade de energia utilizada na edificação. Muitos autores consideram que, ao ritmo atual de consumo dos recursos energéticos, em um prazo de cinqüenta anos, o mundo provavelmente terá esgotado suas reservas não renováveis. As perspectivas mais otimistas apontam para um aumento significativo no valor da energia.
O projeto pode ser concebido de tal maneira que conserve energia. Para tanto, deve-se verificar que aspectos da edificação requerem quantidades excessivas de recursos
energéticos e decidir quais medidas podem ser tomadas para se chegar a um nível de
consumo mais razoável.
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Soluções arquitetônicas, desenvolvidas no projeto, são técnica e economicamente possíveis.
Um dos aspectos a serem verificados é o da iluminação. Dispondo o país de uma abundância de oferta de luz natural, podem-se tomar decisões de projeto para que, durante parte significativa do dia e do ano, trabalhe-se apenas com luz natural, dispensando-se a luz artificial. Outro aspecto é o da ventilação. O correto dimensionamento de aberturas para entrada e saída de ar favorece as renovações de ar adequadas para garantir a salubridade e o conforto necessários ao exercício das funções esperadas no interior do edifício. O clima de São Paulo já não apresenta condições extremas e, portanto, uma arquitetura adaptada e adequada deve, no mínimo, garantir espaços internos com condições semelhantes ou melhores que o ambiente externo.
As necessidades da Guararapes/Riachuelo
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A necessidade de espaço de estocagem para a reposição de produtos, principalmente em lojas de Shopping Centers, costuma ocasionar um custo elevado na locação de áreas no interior desses shoppings. A diretoria da Riachuelo - uma cadeia de lojas de departamento, especializada em roupas e produtos têxteis, pertencente à Guararapes-,entretanto, realizou uma experiência bem sucedida em Natal - RN, com a construção e operacionalização de um Centro de Distribuição.
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O sucesso do projeto levou a empresa a considerar a possibilidade de repetir o mesmo conceito em escala nacional, ou seja, em todas as cidades com lojas do grupo, tendo São Paulo como centro irradiador.
Avaliadas as variáveis logísticas e operacionais optou-se pela construção de um Centro de Distribuição em Guarulhos, junto à Rodovia Presidente Dutra, em terreno da própria empresa.
A experiência no nordeste e os resultados obtidos alimentaram uma expectativa de desempenho semelhante em todas as áreas, inclusive sob os aspectos térmico e luminoso da edificação.
Ocorre que as diferenças climáticas são marcantes, com relação à temperatura, umidade e velocidade do ar e níveis de iluminamento proporcionados pela abóbada celeste. O fato de terem conseguido condições favoráveis de desempenho termo-luminoso na edificação em Natal, levou à exigência de desempenho semelhante em São Paulo. Iluminação e conforto térmico (naturais) dos ambientes tornaram-se objetivos primordiais a serem alcançados pelo novo projeto arquitetônico.
Mesmo por se tratar de atividade com concentração pouco significativa de pessoas, não houve descuido com relação às condições de conforto dos usuários. Privilegiaram-se as condições de conforto térmico de verão e a possibilidade de se utilizar iluminação artificial nos ambientes pelo menor tempo possível.
Dadas as condições de projeto, o grande desafio foi conseguir desempenho próximo ao apresentado pelo centro de distribuição em Natal (referência forte na Diretoria da empresa), em área equivalente ao dobro da primeira e em condições climáticas distintas (principalmente a ausência da brisa contínua, lá verificada).
Algumas exigências operacionais se opunham às soluções de conforto passíveis de serem adotadas, fazendo com que a resposta da edificação não fosse a mais adequada. Foi o caso, por exemplo, da exigência de não haver aberturas para a ventilação natural ao nível do piso, em virtude da necessidade de segurança e coibição de furto de produtos, pois tais aberturas poderiam ser utilizadas para passar produtos do interior para o exterior do centro de distribuição. Dessa forma, a aberturas somente poderiam existir a partir de 2,10 m (altura de portas).
O compromisso de proteção contra insolação excessiva, ventilação e iluminação propiciou o uso de elementos vazados nas paredes e sistemas de ventilação e iluminação naturais na cobertura, conforme se pode verificar abaixo.
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Iluminação natural proposta
A iluminação natural seria obtida através de telhas translúcidas. Considerando-se a necessidade colocada pela de empresa de 300 lux, partiu-se para um pré-dimensionamento, no qual foram levados em conta os seguintes dados:
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- disponibilidade de luz natural de 20.000 lux na maior parte do dia e do ano;
- uma área de 1.920m2, de 48m por 40m, composta de 4 módulos de 20m por 24m;
- pé-direito de 10m, considerando pé-direito útil de 9,20m;
- coeficiente de transmissão do poliuretano branco translúcido de 82%;
- paredes internas do galpão brancas, com coeficiente de reflexão de 70%;
- forro do galpão cinza claro com coeficiente de reflexão de 50%;
- coeficiente de manutenção de 0,50, considerando- se periodicidade de limpeza de 3 em 3 meses.
Em primeiro momento foram efetuados cálculos manuais que indicaram que 12% de área iluminante na cobertura seriam adequados para a
meta de 300 lux. Para se verificar esses números decidiu-se fazer simulações em computador, obtendo-se os seguintes dados:
Estação / Horários |
8h |
9h |
10h |
12h |
15h |
16h |
17h |
Inverno |
219 lux |
362 lux |
462 lux |
551 lux |
362 lux |
219 lux |
58 lux |
Verão |
469 lux |
607 lux |
713 lux |
802 lux |
607 lux |
469 lux |
309 lux |
Estes resultados levam à conclusão de que, com 12% de área iluminante na cobertura,considerando um poliuretano branco translúcido
de coeficiente de transmissão de 82%, obtêm-se a meta estipulada, isto é, mínimo de 300 lux na maior parte do ano, pois apenas no
início e no final do dia no inverno é que os resultados estão abaixo do estipulado.
Proteção contra radiação solar
A maior carga de radiação solar está na cobertura, devendo esta receber um tratamento térmico especial (isolamento) e revestimento
de cor clara para a maior refletância possível. Em comparação, as paredes envoltórias têm uma área bem menor, mas devem ser
sombreadas com o uso de quebra-sóis, principalmente nas aberturas, evitando, assim, o sobreaquecimento das áreas próximas à
periferia do prédio.
Ventilação proposta
As dimensões exageradas do prédio impediam a previsão de uma ventilação cruzada eficiente em toda a área. A única possibilidade
real estava na ventilação por efeito chaminé, capaz da renovação interna do ar e da movimentação do ar para efeitos de conforto
ambiental. A utilização de elementos de ventilação natural permite o efeito chaminé com eficiência. O dimensionamento das aberturas
partiu do estabelecimento de uma zona neutra (um plano intermediário, abaixo do qual toda abertura é de entrada de ar, e acima do
qual toda abertura é de saída) entre 5 e 8 metros acima do nível do chão, de forma a permitir uma vazão eficaz para
a renovação do ar ambiente, garantir velocidade adequada deste ar e assegurar o conforto térmico dos ocupantes.
Como diretriz de projeto para aproveitamento máximo da ventilação por efeito chaminé, recomendou-se uma área de até 500m2 de
aberturas de portas na face sul, um mínimo de 850m2 para aberturas inferiores (abaixo da zona neutra) e 450m2 para aberturas
superiores, garantindo a ventilação permanente do ambiente, com 3 a 4 renovações de ar por hora. Aberturas controláveis com o
máximo de 1.950m2 na parte superior e 1.900m2 na parte inferior permitem a otimização da ventilação. A instalação de elementos
de ventilação natural na cobertura com 1.440m2 de área de abertura contribui positivamente. Com todos os vãos abertos, a zona
neutra fica a 7m do nível do chão e o fluxo de ar estimado é de 3.460.000 m3/h, garantindo 4,7 renovações por hora.
Restrições de segurança obrigaram as aberturas de entrada a estarem acima dos 3m de altura do chão, o que prejudicou, em parte, o
efeito desejado da ventilação cruzada no plano de trabalho. Pelas dimensões do edifício, as áreas centrais, distantes das aberturas
laterais, foram prejudicadas quanto ao efeito natural da ventilação.
Iluminação artificial proposta
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O projeto de iluminação artificial foi concebido visando atender às exigências de iluminância, complementando o projeto de iluminação natural. Isso significava criar um sistema que fosse flexível, ou melhor, que se adequasse aos diversos níveis de iluminância que ocorressem ao longo do dia. Como se trata de um ambiente de grandes dimensões com uma altura de instalação de aproximadamente 9m, optou-se por luminárias com lâmpadas vapor metálico de 400W.
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A luminária selecionada é composta de corpo em chapa de aço com pintura eletrostática para alojamento dos equipamentos auxiliares,
para lâmpada vapor metálico 400W, ovóide, com refletor em acrílico prismático Lexalite de 22" de diâmetro e de altíssimo rendimento.
Os cálculos indicaram que uma malha de 8x8 metros supriria a necessidade estabelecida de 300 lux. Foram criados dois circuitos
independentes, cada um atendendo a uma malha de 8mx16m, proporcionando 150 lux. Como foi previamente definido que se deveria ter,
em qualquer circunstância de iluminação natural, pelo menos 300 lux, quando a iluminância média do sistema natural atinge níveis
abaixo dos 300 lux, aciona-se o primeiro circuito; quando o nível da componente natural é inferior a 150 lux, liga-se o segundo
circuito. Assim, fica garantido sempre o mínimo de 300lx no ambiente. Verificações feitas nos horários críticos apresentaram os
seguintes dados: às 16 horas: 372 lux, com o acendimento de metade das luminárias (malha 8x16), e às 17 horas: 317 lux com o
acendimento de todas as luminárias (malha 8x8 m).
Conclusão
A partir de premissas que consideram o desempenho de uma edificação com base na utilização de meios naturais de condicionamento
(térmico e lumínico) dos ambientes, o projeto foi desenvolvido, buscando-se tender às exigências de conforto dos usuários, ou seja,
permitir o desempenho das atividades físicas inerentes às suas tarefas, sem acarretar sobrecarga nos mecanismos reguladores do seu
organismo. Isto permitiu obter-se, também, uma edificação ecologicamente correta, na medida em que se recorre aos meios artificiais
(iluminação e ventilação) o mínimo de tempo possível para manutenção dos preceitos do conforto humano. A utilização da
disponibilidade de luz natural (da abóbada celeste) e a renovação do ar do interior da edificação a partir da diferença de pressão
entre o ar quente em relação ao frio (efeito chaminé) permitiram considerável economia de energia para a manutenção das atividades
da empresa, principalmente no tocante à iluminação dos ambientes.
Com iluminação natural durante o dia, e artificial, à noite, mantem-se a mesma iluminância.
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