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Edições
:: Fonte: Revista Lume Arquitetura - edição número 7
Entrevista: Peter Gasper
Criatividade de brasileiro, exigência de alemão
Por: Cláudia Cavallo
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Quem ainda não ouviu falar dele ? É um dos poucos profissionais que freqüentemente têm espaço na grande mídia. Domina a técnica e a arte de iluminar seja na arquitetura, teatro, TV ou… na cidade, em mega projetos monumentais como o da barragem de Itaipu, a passarela do Samba no Rio de Janeiro, a Cidade do Rock ou a decoração de natal no Morro do Pão de Açúcar.
Peter Gasper é um lighting designer atípico, original. Sua trajetória profissional deixa isso bem claro. É artista na essência, mas seu conhecimento técnico impressiona, principalmente por ser praticamente autodidata - resultado, talvez, do sangue alemão num coração brasileiro.
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Tem inúmeros projetos realizados, conseqüência de sua competência, sim, mas também de um
carisma e uma capacidade de convencer, inatos - características que contribuíram,
inegavelmente, para que ele chegasse a alcançar popularidade nacional. No momento, além dos
projetos luminotécnicos, Peter está envolvido em dois grandes projetos pessoais. Um deles, é
uma briga, na justiça, pela defesa de seus direitos autorais na recente mudança da iluminação
dos desfiles das Escolas de Samba no Rio de Janeiro. O outro, é um centro de estudo da luz, que
funcionará na nova sede de seu escritório, ainda em construção, e que será aberto à
participação de empresas parceiras dispostas a investirem na cultura da iluminação. Sim, você
já ouviu falar de Peter Gasper, mas Lume Arquitetura te dá a chance de conhecê-lo como poucos.
Aproveite!
Lume Arquitetura: Uma vez você me disse que a gente desperdiça o que tem de sobra.
Que, enquanto nos países desenvolvidos a tecnologia é um detalhe, no Brasil o ser humano é um
detalhe, se faz pouco caso da vida. É lenda ou realidade que sua família imigrou para o Brasil
fugindo da Segunda Guerra mundial?
Peter Gasper: É realidade. Eu tinha 11 anos e minha família fugiu da Alemanha Oriental.
Tínhamos um parente no Brasil - o verdadeiro e original Gasper - e viemos para cá,
inicialmente para Petrópolis, no Rio de Janeiro. Depois, passamos por algumas cidades e fomos
para Porto Alegre. Quando voltei para o Rio, já tinha 21 anos. Vim, porque queria estudar
Arquitetura.
Lume Arquitetura: Se veio para estudar Arquitetura, como foi parar nos estúdios de
TV?
Peter Gasper: Estudava na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Praia Vermelha.
Praticamente, do lado da faculdade ficava o estúdio da TV Tupi. Eu precisava trabalhar para
me manter e, então, arranjei um emprego na emissora, para atuar no departamento de cenografia.
Era o que havia de mais próximo da área de Arquitetura em televisão. Eu estudava de dia e
trabalhava à noite.
Lume Arquitetura: Por que não chegou a se formar? O glamour da vida nos estúdios foi
mais forte?
Peter Gasper: Não, apenas fui tomando outro rumo. A partir da televisão, comecei a
trabalhar também com teatro e a me interessar pela cenografia como profissão. Além disso, até
hoje, o mundo do entretenimento é uma loucura, não tem hora, sábado, domingo ou feriado, não
sobra tempo para nada. Como conseqüência natural do desenvolvimento profissional que fui
adquirindo através da televisão, acabei trancando a matrícula na faculdade no terceiro ano e
não voltei mais.
Lume Arquitetura: Como, da Cenografia, você foi parar em Iluminação?
Peter Gasper: Eu olhava os cenários ao vivo no estúdio e, depois, no ar. Por vezes o resultado era lindo, por vezes era sofrível. Resolvi me aproximar dos iluminadores para tentar entender o que acontecia, saber o que deveria fazer ou evitar para que aquela diferença deixasse de ser tão gritante. Fazia perguntas, mas as respostas eram vazias… Na verdade, os próprios iluminadores não sabiam os motivos, não tinham o conhecimento necessário para isso. Era outra época… A televisão era algo novo e fazia-se tudo muito empiricamente. Em 1974, surgiu a TV a cores e o Governo brasileiro e o Governo alemão fizeram um acordo para levar profissionais de televisão daqui para fazerem cursos na Alemanha. Cada emissora podia mandar quantos técnicos fossem necessários. A direção da TV Tupi, emissora na qual eu, na época, trabalhava, decidiu enviar 3 profissionais, entre eles o Mauro Monteiro, então, chefe da cenografia. Eu, tendo ficado de fora, falei: "Mauro, eu tenho que ir!" Ele me perguntou como, se a vaga de cenógrafo já estava preenchida. Respondi que não queria ir para estudar cenografia, queria estudar a luz. Fomos à sala do diretor geral, José Arrabal, e o convencemos. O curso era em Berlim e tinha duração de um mês. Como eu sou alemão e falo o idioma, tive mais facilidade de "fuçar" as coisas. Descobri que havia cursos de extensão. Um mês era muito pouco para aprender sobre iluminação, principalmente porque eu não conhecia praticamente nada sobre o assunto. Só sabia que a luz interferia nos cenários e eu precisava dominá-la. Para fazer o período de extensão, teria que pagar do meu próprio bolso e me manter por conta própria. Consegui me tornar tradutor oficial do curso, assim, concluí o período de extensão e descobri que eu estava certo: o que faz a cena é a luz. Aprendi a dominar a cenografia, não com paredes de compensado e pano, mas com outra ferramenta: a LUZ. Diria, hoje, que o teatro é a melhor faculdade artística e a televisão é a melhor faculdade técnica, porque nos permite experimentar intensidades, foco, temperatura
de cor, reprodução de cor, contraste, dinâmica; tudo, o tempo todo.
Lume Arquitetura: E como migrou do mundo cenográfico para o mundo real; das paredes de tapume, para as de tijolos; da
televisão para a Arquitetura?
Peter Gasper: Começou quando conheci Oscar Niemeyer. Foi na época da construção do Sambódromo. A obra dele tinha um
conceito multifuncional, para integrar Carnaval, arte, escola e televisão. Foi quando me surgiu a idéia de revolucionar os
desfiles, possibilitando uma iluminação teatral. Foram feitas inúmeras reuniões até concluirmos que ainda não existia no mundo
equipamento com potência suficiente para viabilizar a idéia. Resolvemos, então, criar um sistema com equipamento convencional
com projetores iguais aos utilizados em estádios de futebol, com lâmpada de vapor metálico até o dia em que aquela "revolução"
que vislumbramos pudesse se tornar realidade, o que começou a acontecer muitos anos mais tarde. Quando conheci o Oscar Niemeyer,
houve uma empatia mútua. Eu percebi que meu caminho futuro seria aquele. Ele, por sua vez, gostou de ter alguém com alma de
artista para iluminar suas obras. A partir daí, passei a fazer o projeto luminotécnico de muitas de suas criações, como o Museu
de Arte Contemporânea de Niterói, por exemplo.
Lume Arquitetura: Qual foi seu primeiro projeto luminotécnico exclusivamente arquitetônico?
Peter Gasper: Em 1985, o Dr. Roberto Marinho me chamou para fazer o projeto de iluminação de um hotel em Copacabana.
Desde quando trabalhava na Globo, vinha sendo convidado por inúmeras pessoas para iluminar jardins, restaurantes, academias de
ginástica, colégios, fachadas… Fazia isso de forma bastante empírica. Comprava equipamento - já investi muito nisso -, trazia para
o meu jardim ou para dentro da minha casa e ficava testando, estudando, medindo. Queria ter certeza do resultado dos meus projetos,
especificar com "conhecimento de causa". Neste hotel - Rio Atlântico Suíte Hotel -, de propriedade dos Marinho, o prédio tinha sido
projetado por um arquiteto chamado José Luiz Pinho e o projeto de luminotécnica era de Esther Stiller. Só que, num determinado
ponto da obra, um grupo suíço entrou na sociedade e decidiu mudar tudo - os ambientes que, originariamente, seriam tradicionais,
com tapetes e cortinas, teriam que ser transformados em espaços totalmente modernos, "clean".
Leia a entrevista na integra, solicite o seu exemplar.
A Catedral de Brasília e o campanário são obras de Oscar Niemeyer iluminadas por Peter Gasper.
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