Opinião

A luz como elemento construtivo

Lições da exposição de Clarice Lispector




Por Fernanda Carvalho


      É possível que a luz seja o próprio espaço? Elemento ou matéria-prima tão importante quanto o tijolo, o concreto, e não apenas mais uma “camada de tinta”? Muito se discute sobre a integração da luz ao ambiente concebido, na arquitetura e na cenografia. Fala-se de sua função de realçar, transformar, modelar aquilo que já existe, no entanto, creio que o papel da iluminação nos projetos vai além.
      Temos pouca tradição em design de luz no Brasil. Além de escassez de cursos voltados à formação dos lighting designers, falta aos arquitetos o hábito de trabalhar com a luz nos primeiros esboços do projeto. A luz é tratada, de um modo geral, apenas como um apêndice técnico ou como maquiagem e decoração.
      Isso pode limitar o projeto de iluminação, pois quando trabalhamos com um ambiente já concebido, em que o arquiteto ou cenógrafo lembra-se da iluminação na última hora, temos normalmente um resultado superficial. A luz pode realçar, esconder e mesmo transformar, mas nunca será parte fundamental do próprio espaço construído.
      Em um projeto que desenvolvi recentemente para a exposição “Clarice Lispector – A Hora da Estrela”, em parceria com a cenógrafa Daniela Thomas, a iluminação foi encarada de maneira diferente. Provavelmente pelo fato de Daniela ter bastante experiência em teatro, a luz foi mais que um simples elemento. Ela fundamentou a montagem.
      No trabalho concebido, a luz ajuda a construir cada ambiente, e é quesito primordial para criar as cenas ou para revelar os objetos de interesse. Mesmo tendo uma visão bastante minimalista com relação à luz, a cenógrafa propõe diferentes ambientes para os quais técnicas de iluminação diversas são necessárias. A luz deveria ser, ao mesmo tempo, cênica, museográfica e parte do cenário.
      A luz cênica deu expressão aos espaços e foi responsável por provocar diferentes sensações no público. No primeiro amambiente da exposição, uma parede com frases e trechos de livros se mistura a fotos gigantes da escritora. Na frente desta parede, um véu de plotagens em telas translúcidas dificulta um pouco a leitura dos textos. Utilizei para este espaço, luz chapada de frente. A cenógrafa queria a dificuldade de leitura, algo um pouco incômodo, e a solução de uma luz lavada, chapada de frente, a mais simples do mundo, resolveu. Curioso, a luz oferece inúmeras possibilidades de criação, mas acredito que ela fala mais quando atua na construção de uma idéia.
      Em uma sala, cenografada para ser o quarto da empregada, ambiente do livro “A Paixão segundo G.H.”, um plafon é a luz do quarto. Aqui, a iluminação compôs o cenário. A nossa idéia era montar um quarto real, portanto, não deveria ter luz estourada, recortada, ou que ressaltasse, escondesse ou transformasse nada.
      Na enorme sala das gavetas, o mais fantástico dos ambientes da exposição, infinitas gavetas nos trazem ao universo misterioso de Clarice. Algumas destas gavetas podem ser abertas e contêm documentos, cartas e memórias da escritora. Para iluminar estas peças, uma lâmpada foi embutida nos fundos das gavetas, por trás de um acrílico leitoso com sistema de “botão de geladeira” para apagar quando a gaveta for fechada. Por abrigar estes documentos raros, o nível máximo de iluminação aplicado na sala foi de 70 lux, que criou uma ambientação agradável, aconchegante e focada, como clima de biblioteca.
      Ao ver o resultado deste trabalho, penso que seria ideal se a luz fosse, em todo projeto, tratada como um elemento construtivo esteticamente, por meio de parceria entre cenógrafos ou arquitetos e iluminadores. Afinal, a obra final deve ser única, e isso é mais do que ter que integrar a luz ao projeto: é sê-lo.

Fernanda Carvalho é arquiteta e lighting designer. E-mail: luz.fernanda@uol.com.br.