Opinião

Lâmpada incandescente

Banimento como início da banalização




Por zéNuno Pinto Sampaio


      Sou totalmente contrário ao banimento de qualquer coisa que não seja a violência e a hipocrisia. No que diz respeito ao lighting design arquitetônico, sou especialmente contra a banalização da “experiência do lugar”, seja doméstico ou comercial, com a criação de meros espaços físicos, que não sejam pensados “por pessoas para pessoas”, numa troca de emoções vivas.
      Defender o banimento da lâmpada incandescente é apoiar o desaparecimento da principal ferramenta do design de iluminação arquitetural de qualidade, e fazer a apologia do fim dos valores qualitativos que devem reger esta profissão.
      Um projeto de iluminação, hoje, deve oferecer conforto e bem-estar do ponto de vista de um indivíduo, família, empresa, estado ou país, e isso tende para a consciência e o emprego de soluções energeticamente eficientes, e não apenas eficazes. No entanto, isso não significa que devemos tomar atitudes fundamentalistas, como a de banir as lâmpadas incandescentes.
      Estas lâmpadas, além de fornecer conforto e acuidade visual, são bem mais eficientes e eficazes do que os movimentos industriais apregoam contra. São eficientes e eficazes desde o processo produtivo até o momento em que deixam de funcionar, sendo 90% recicláveis.
      São eficientes e eficazes também, quando permitem o mais elevado índice de reprodução cromático, quando não produzem freqüências e campos eletromagnéticos potencialmente cancerígenos. Quando pela associação direta à incandescência tem um caráter natural à escala humana, são eficientes e eficazes na criação de bem-estar, físico e emocional, contribuindo para a criação do denominado “quarto” em que a vida saudável acontece.
      É incontestável que limitações energéticas deverão ser enfrentadas como novos desafios do design de iluminação – que se propõe a apresentar soluções – e que deve partir do designer essa consciência e boa prática de alternativas.
      Enquanto jovem, mas experiente na carreira de lighting designer, tenho 32 anos e 10 de profissão iniciada no palco, prefiro pensar que será com módulos Fotovoltaicos Integrados na Arquitetura (BIPV) que a nossa responsabilidade moral será otimizada, repensando na raiz o que significa verdadeiramente o tratamento da luz na arquitetura voltada para o futuro.
      É claro que as lâmpadas incandescentes consomem muita energia elétrica. Uma solução para racionalizar o uso seria a substituição funcional de algumas peças por outras, teoricamente mais eficazes. No entanto, muitas outras aplicações serão impossíveis de ser realizadas com a mesma qualidade sob uma lâmpada fluorescente compacta ou sob uma dúzia de LEDs encarcerados num E27.
      Além do mais, a utilização massiva das lâmpadas fluorescentes, como fonte sustentável de iluminação, levanta uma questão de fundamental importância para o futuro da humanidade. Diz respeito à contaminação de fontes de água potável: o que fazer com todo o mercúrio (Hg) dessas lâmpadas, que nunca será reciclado?
      De acordo com dados dos fabricantes de qualidade, publicados no site da Associação dos Lighting Designers Profissionais (www.pld-a.org) apenas na União Européia, dos 27 Membros (EU27), cerca de 2 toneladas métricas de Hg não adulterado atingem anualmente o ecossistema, provenientes de lâmpadas fluorescentes. Essa quantidade seria suficiente para contaminar o Lago Genebra, o maior lago de água doce da Europa, situado em Genebra, na Suíça. Isso não contraria o caráter ambientalista dessa campanha?
      O design de iluminação arquitetônico deverá idealmente gerar espaços emocionais, sem fundamentalismos, como expressos nesta atitude de banir as lâmpadas incandescentes, camuflada por um retirar “faseado”, como o determinado pelo governo da Austrália ou Irlanda.
Se não, comecemos por banir o carro que conduzimos. Banir o avião em que voamos. Banir os sintéticos que vestimos. E a vida voltará a ser um pouco mais verde.


zéNuno Pinto Sampaio é lighting designer (PLDA), Mestre em lighting design arquitetônico pela KTH, Estocolmo (Suécia). Atualmente trabalha no www.artligh.ch,na Suíça, e com vídeo-arte e dança contemporânea, na França.
(www.znunosampaio.blogspot.com / znunosampaio@gmail.com)